Uma dúvida comum no consultório: "por que o remédio que minha amiga tomou fez ela perder 20 kg e eu só perdi 4?". A resposta está em um conceito relativamente novo na medicina da obesidade: os fenótipos.
Nem toda fome é igual
Pesquisadores da Mayo Clinic (Acosta, Camilleri et al., Obesity, 2021) propuseram que existem pelo menos quatro "assinaturas" diferentes por trás do ganho de peso, e cada uma responde melhor a um tipo de tratamento:
- Cérebro faminto (Hungry Brain): a pessoa demora mais para se sentir satisfeita durante a refeição — come além do necessário porque o sinal de "pare" demora a chegar.
- Intestino faminto (Hungry Gut): a saciedade some rápido demais depois de comer — a pessoa sente fome de novo pouco tempo depois da refeição.
- Fome emocional (Emotional Hunger): a comida é usada como regulador de humor, ansiedade ou estresse, independente da necessidade calórica.
- Metabolismo lento (Slow Burn): o gasto energético em repouso é comparativamente menor.
Em um estudo clínico com mais de 300 pacientes, tratar cada fenótipo com o remédio mais alinhado a ele (em vez de escolher "no escuro") produziu uma perda de peso 75% maior em 12 meses — 15,9% do peso corporal contra 9,0% no grupo tratado sem essa lógica (Acosta et al., Obesity, 2021).
Isso explica a variação nos estudos grandes também
Mesmo dentro dos grandes estudos de aprovação de medicamentos (como os estudos STEP, com a semaglutida), a resposta não é uniforme: existem pacientes que perdem menos de 5% do peso e pacientes que perdem mais de 20%, todos usando a mesma dose. Isso não é "coincidência" — reflete a heterogeneidade biológica da obesidade.
O que fazer com essa informação
Na prática, isso reforça três pontos importantes para quem está em tratamento:
- Comparar sua evolução com a de outra pessoa não faz sentido. Vocês podem ter fenótipos diferentes.
- Resposta "fraca" nas primeiras semanas não é definitiva. Alguns estudos mostram que parte dos pacientes considerados "não respondedores precoces" ainda respondem bem depois, quando a dose é ajustada ou combinada com outra estratégia.
- Trocar de medicamento não é fracasso — é ajuste fino. Estudos mostram que testar sequencialmente diferentes classes de medicação aumenta bastante a proporção de pessoas que atingem a meta de perda de peso, comparado a insistir numa única droga.