Nem toda fome é igual — e entender qual é o seu padrão predominante pode ajudar (muito) a escolher a estratégia certa de tratamento, incluindo qual classe de medicamento tende a funcionar melhor para o seu caso.

Os três padrões mais estudados

Padrão ansiedade/beliscador (via ligada à serotonina): a pessoa belisca ao longo do dia, principalmente doces e chocolate, muitas vezes de manhã e à tarde. Um estudo com mais de 400 adolescentes mostrou associação clara entre frequência desse tipo de "beliscar" e risco de sobrepeso/obesidade (Bo et al., J Pediatr Gastroenterol Nutr, 2014). A explicação neuroquímica: carboidratos aumentam a captação de triptofano no cérebro, elevando a serotonina — o que, num primeiro momento, melhora o humor, mas cria um ciclo de busca repetida por doce (Wurtman & Wurtman, 1995).

Padrão misto (via ligada à dopamina): combina beliscos doces e salgados ao longo do dia, geralmente com forte componente de prazer/recompensa (o "não consigo comer só um"). Aqui entra a distinção entre "wanting" (motivação/vontade de comer, ligada à dopamina) e "liking" (o prazer propriamente dito, ligado a receptores opioides), descrita por Berridge e colaboradores (Brain Research, 2010).

Padrão fome/volumétrico (via ligada à noradrenalina): a pessoa faz poucas refeições, mas em quantidades grandes — o "prato cheio" ou "pratão", sem muitos beliscos entre as refeições.

Por que isso importa na hora de escolher o tratamento

Estudos apresentados em congressos internacionais de obesidade (ECO 2023) mostram que diferentes medicamentos agem de forma mais eficaz em diferentes componentes do apetite — alguns reduzem mais a fome física entre as refeições (ligados ao "intestino faminto"), outros atuam mais sobre a saciedade durante a refeição (ligados ao "cérebro faminto"), e outros ainda agem mais sobre o componente de recompensa/prazer (fome emocional). Escolher o remédio considerando o padrão predominante do paciente — e não só o peso ou o IMC — é uma das fronteiras mais promissoras da medicina da obesidade personalizada.

Um roteiro simples para se autoconhecer

Pergunte-se: em que horário do dia eu mais erro? No que eu erro (doce ou salgado)? É pouca quantidade repetida ou uma quantidade grande de uma vez? Eu como por fome física ou para lidar com uma emoção? Sinto culpa depois? Meu padrão é previsível ou caótico?

Essas perguntas, usadas na prática clínica de nutrologia, ajudam a identificar padrões e comunicar melhor o que você sente para o seu médico — o que torna o tratamento muito mais assertivo do que tentar "adivinhar" qual remédio ou dieta vai funcionar.

Para levar

Antes de julgar sua "falta de força de vontade" com determinado alimento, vale entender qual via neuroquímica pode estar por trás desse comportamento. Isso não é desculpa — é informação que pode guiar um tratamento muito mais eficaz e individualizado.

Nota editorial: os artigos acima citam estudos científicos publicados e diretrizes de sociedades médicas nacionais e internacionais, mas têm finalidade exclusivamente educativa. Não substituem consulta com médico nutrólogo/endocrinologista. Doses, indicações e condutas devem ser sempre individualizadas por profissional habilitado.

ReferênciasBo S et al. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2014;59:465-471. · Wurtman RJ, Wurtman JJ. Obesity Research. 1995;3:477S-480S. · Berridge KC et al. Brain Research. 2010;1350:43-64. · Roberts CA et al. Acta Diabetologica. 2017;54:715-25.
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui consulta médica. Doses, indicações e condutas devem ser sempre individualizadas por profissional habilitado.