"Eu sei que estou fazendo, não consigo parar, e depois me sinto péssima" — essa frase resume bem o que é viver com Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCA), uma condição que costuma ser confundida com falta de disciplina ou "gula", mas que é reconhecida como diagnóstico psiquiátrico formal desde o DSM-5.
Como se diferencia de só "comer demais de vez em quando"
Segundo os critérios diagnósticos, a compulsão alimentar envolve, na mesma ocasião: uma quantidade de comida claramente maior do que a maioria das pessoas comeria em situação parecida, mais a sensação de perda de controle sobre o que e quanto se come. Além disso, precisam estar presentes pelo menos três destes sinais: comer muito mais rápido que o normal, comer até sentir desconforto físico, comer sem fome física, comer sozinho por vergonha da quantidade, e sentir nojo de si mesmo, depressão ou culpa depois. Para fechar o diagnóstico, isso precisa acontecer pelo menos uma vez por semana durante três meses, causar sofrimento significativo, e não vir acompanhado de comportamento compensatório (como vômito ou jejum extremo) — o que diferenciaria de bulimia.
A gravidade é classificada pela frequência semanal de episódios: leve (1 a 3), moderada (4 a 7), grave (8 a 13) e extrema (14 ou mais).
É mais comum do que parece — e muito subdiagnosticado
O TCA é o transtorno alimentar mais prevalente que existe, mais comum que anorexia e bulimia juntas. Estudos brasileiros encontraram prevalência ao longo da vida em torno de 4,7% — mais alta que a relatada em outros países. E, entre pessoas com obesidade em tratamento, estima-se que de 13% a 27% tenham TCA associado (Montano et al., 2016). Ainda assim, é a "ponta do iceberg": pesquisas mostram que apenas uma pequena fração de quem preenche os critérios diagnósticos chega a receber o diagnóstico formal.
A base não é "fraqueza" — é neurobiológica
Estudos de neuroimagem mostram alterações em circuitos de recompensa (envolvendo dopamina) e no controle inibitório do cérebro em pessoas com TCA — de forma parecida (mas não idêntica) ao que se observa em outros transtornos de controle de impulso (Kessler et al., Neurosci Biobehav Rev, 2016).
Existe tratamento
O tratamento costuma combinar terapia (a terapia cognitivo-comportamental tem boa evidência) com, em alguns casos, medicação. No Brasil, a lisdexanfetamina é o único medicamento formalmente aprovado para TCA em adultos. Estudos clínicos randomizados mostraram redução significativa na frequência de episódios de compulsão comparado a placebo, com manutenção do efeito em longo prazo e baixa taxa de recaída em quem continuou o tratamento (McElroy et al., JAMA Psychiatry, 2015; Hudson et al., JAMA Psychiatry, 2017).
Se você se reconheceu nesses episódios de "comer sem conseguir parar, mesmo sem fome, seguido de culpa" — isso tem nome, tem explicação biológica e, principalmente, tem tratamento. Vale conversar com um profissional especializado em nutrologia, endocrinologia ou psiquiatria que atenda transtornos alimentares.